terça-feira, 21 de abril de 2009

Hipotermia

Está nevando. A neve é negra. A neve é negra e está de noite. Não há outra explicação pra tamanho frio e escuridão.
A fogueira estava conseguindo me esquentar um pouco, mas a brasa não resistiu à umidade e acabou morrendo. Estou torcendo pra em algum momento, por milagre, achar um fósforo que eu achei que havia perdido em meus bolsos. Tremer não é uma opção, e não é de leve.
Calor humano. É, seria uma boa opção, mas meus companheiros, aqueles que não desistiram ainda de me fazer companhia, sofrem tanto com o frio quanto eu. Ou mais, se duvidar. Há quem tenha que carregar muita coisa e quase não agüenta o peso. Pedir calor humano a quem não tem é abuso, egoísmo.
O vento está soprando muito forte e parece que a neve nunca vai parar de cair. A sensação de impotência é realmente horrível. Eu realmente não posso fazer nada contra isso. A noite também parece eterna, mais do que é comum uma noite ser comprida do inverno. E a lua é nova – se realmente houver lua.
É claro que foi erro meu ter caminhado nessa direção, quando eu deveria ter ido pra outra. É sempre culpa minha, mas talvez não tenha muita opção. Eu fecho os olhos e torço pra pelo menos conseguir dormir, mas nos 5 minutos de cochilo, tudo o que tenho são pesadelos. Nem o sono vale a pena.
O frio percorre todo o meu corpo, e cada pelo está arrepiado. Cada osso, congelado, e cada músculo treme infinitamente. Dói. Cada órgão. Dói. Cada membro. Dói.
Ficar sentado aqui, perdendo as esperanças, não adianta muita coisa, mas a neve já está alta, e eu não conseguiria andar. Torço para que, ao menos, meus companheiros sobrevivam ao frio. Fecho os olhos mais uma vez e visualizo tudo que vivi com eles, e pelo quê passamos até chegar até esse fim de mundo. Quantas malditas trilhas erradas! Sempre fui covarde pra aceitar que não era coragem continuar, era burrice. Agora estamos aqui, perdidos, no escuro, com frio, como me sinto culpado.
Meu estômago avisa que os suprimentos de energia também acabaram, ele também dói, grita. A acidez está digerindo ele próprio.
Abro meus olhos, mas é como se os mantivesse fechado. Não há como enxergar. Posso apenas ouvir alguns soluços, e o vento cortando.
Minhas pálpebras se fecham, agora involuntariamente. Eu tremo de frio.
Eu tremo muito de frio.

4 comentários:

  1. belíssimamente triste, tristemente belo.

    parabéns [?] ex.

    conte sempre comigo, meu irmão.

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  2. Literalmente, você fez um ótimo uso do terror que a solidão e a natureza podem causar, este provavelmente seja o terror mais intenso e puro. Resta-me entender se isso é uma metáfora sua pra outra coisa, e pra quê.

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  3. Eu entendi uma metáfora ao longo de todo o texto. Acho que é coincidência demais pra ser coincidência, mas prefiro não falar nada até ter certeza u.u

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  4. eu leio alguns textos seus, e me identifico demais... não sei até que ponto isso é bom ou ruim ;x

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